quarta-feira, 14 de maio de 2008

Escrita Hieroglífica



Existiam duas formas de escrita no Antigo Egito: a demótica (mais simplificada) e a hieroglífica (mais complexa e formada por desenhos e símbolos). As paredes internas dos túmulos e pirâmides eram repletas de textos que falavam sobre a vida dos faraós, dignitários, rezas e mensagens para espantar possíveis saqueadores.



O conhecimento entre os antigos Egípcios estava associado aos escribas, às classes sacerdotais e aos templos. Numa parte destes encontravam-se as "Casas de Vida" (Per Ankh), nome dado a uma área do templo que funcionava como biblioteca e arquivo, onde também se ministravam conhecimentos e se copiavam os textos de carácter médico, astronómico e matemático.
O hieróglifo que significa escriba, palavra que se pronunciava sesh, pode ser visto na imagem seguinte.
Ele é formado pelos principais instrumentos empregados por aqueles profissionais: uma paleta com reentrâncias para pedaços sólidos de pigmento vermelho e preto, um recipiente com água e um cálamo de junco. A paleta era normalmente feita com um pedaço retangular de madeira. Suas dimensões podiam variar entre 20 e 43 centímetros no comprimento, entre cinco e oito centímetros na largura e entre um e cinco centímetros na espessura. Numa das extremidades havia duas ou, às vezes, várias cavidades para conter as tintas na forma sólida. A tinta preta era feita com carvão ou fuligem e a vermelha com ocre dessa cor finamente moído. Ambas eram misturadas com uma solução fraca de cola de forma a endurecerem ao secar.

Ao escrever o profissional misturava água à pasta do pigmento, como fazem as crianças de hoje com as suas aguarelas. O cálamo era feito de uma haste de junco, com cerca de 15 a 25 centímetros de comprimento. Sua ponta era cortada obliquamente e depois mordida pelo escriba para quebrar as fibras. Os cálamos eram guardados em uma ranhura cavada na parte central da paleta. Tais ranhuras podiam, às vezes, conter uma tampa corrediça, como os estojos escolares de madeira ainda hoje utilizados.
Entre as paletas encontradas pelos arqueólogos muitas continham inscrições a tinta em hierático, as quais parecem ser anotações administrativas feitas pelo próprio escriba, tais como medidas, nomes, contas, registro de mercadorias, etc. Outras paletas contêm inscrições em hieróglifos, geralmente invocando o deus Thoth, deus da escrita e da sabedoria e divindade tutelar dos escribas, o que parece indicar que os materiais de escrita faziam parte do equipamento funerário de seus donos. Todo esse material o escriba carregava dentro de caixas de madeira ou de bolsas de couro.

A Escrita Hieroglífica foi utilizada no Egipto desde o séc. V a.c. ao séc. IV da nossa era. Na origem, cada signo reproduzia directa ou indirectamente o objecto evocado, mas cedo os signos adquiriram um valor fonético que se sobrepôs ao valor ideográfico, sem contudo o substituir.
Os hieróglifos serviam tanto as tradições profanas como sagradas tendo sido gravados em baixos ou altos relevos sobre uma matéria dura (pedra, madeira ou metal). Os signos hieroglíficos foram desenhados em linhas verticais ou horizontais, podendo a leitura ser feita da esquerda para a direita ou vice-versa, sendo o sentido fixado pelos signos figurativos dos homens ou animais, tendo estes a cabeça voltada para o início da linha.

Os egipcios acreditavam que sua escrita sagrada, datada de 3100 a.C. era um presente de Thoth, o deus da sabedoria.
Entretanto, os estudiosos contemporâneos afirmam que o povo do Nilo sofreu influências da escrita mesopotâmica.
Qualquer que seja a sua origem, a escrita hieroglífica foi um instrumento que possibilitou aos egípcios registrarem dados diversificados de sua cultura: da vida cotidiana da população até as proclamações dos sacerdotes e decretos reais. Traduzindo ao pé da letra, "hieróglifo" significa “inscrição sagrada”.

A expedição militar e científica que o imperador Napoleão realizou ao Egito trouxe consigo, entre outras inúmeras antiguidades, para o caso interessa uma pedra encontrada em Agosto de 1799 por soldados franceses que trabalhavam sob as ordens de um oficial chamado Bouchard. Na luta contra ingleses e turcos, eles estavam restaurando e preparando os alicerces para ampliação de um antigo forte medieval, posteriormente chamado de Forte de São Juliano, nas proximidades da cidade egípcia de Rachid (que significa Roseta, em árabe), localizada à beira do braço oeste do Nilo, perto de Alexandria, junto ao mar. Dois anos depois, pelo Tratado de Alexandria, o achado foi cedido aos ingleses e hoje encontra-se no Museu Britânico de Londres.
Tendo ficado conhecida como Pedra de Roseta, é uma estela de basalto negro, de forma retangular, medindo 112,3 cm de altura, 75,7 cm de largura e 28,4 cm de espessura e que numa das faces, bem polida, mostra três inscrições em três tipos de caracteres diferentes, em parte gastas e apagadas em virtude do contato com a areia por milênios. Na parte superior, destruída ou fraturada em grande parte, vê-se uma escrita hieroglífica com 14 linhas; o texto intermediário contém 22 linhas de uma escrita egípcia cursiva, conhecida como demótico, e a terceira e última divisão da pedra é ocupada por uma inscrição de 54 linhas em língua e caracteres gregos. Os três textos reproduzem o mesmo teor de um decreto do corpo sacerdotal do Egito, reunido em Mênfis, em 196 a.C., para conferir grandes honras ao rei Ptolomeu V Epifânio (205 a 180 a.C.), por benefícios recebidos.

Apesar da aparência insignificante da pedra, os estudiosos logo perceberam o seu valor pelo fato de apresentar textos egípcios acompanhados por sua tradução em uma língua conhecida, o que vinha, enfim, estabelecer pontos de partida e de comparação tão numerosos quanto incontestáveis. Por ordem de Napoleão Bonaparte a estela foi reproduzida e litografada e várias cópias enviadas a diversos especialistas em línguas mortas. Entretanto, passaram-se 23 anos desde a data de sua descoberta até que um homem, Jean-François Champollion, pudesse decifrar integralmente o seu conteúdo.

A Pedra de Roseta estará eternamente ligada ao nome de Champollion, pois foi ela que serviu de base aos estudos que o levaram finalmente à decifração dos hieróglifos. A verdade é que, ajudado pelo fato de que aquela estela continha o mesmo texto grafado em hieróglifos, demótico e grego, ele reconheceu nela o nome de Ptolomeu em grego e demótico e, assim, pode identificar o cartucho com o mesmo nome em hieróglifos, dando, assim, um passo importantíssimo na solução do enigma.
Mas vamos conhecer um pouco mais sobre este indivíduo.

Nascido em Figeac, Quercy 23 de Dezembro de 1790 - Paris, 4 de Março de 1832, ) Jean François Champollion, aquele que é considerado o pai da egiptologia, ainda criança mostrou um extraordinário talento linguístico.
Aos 16 anos já conhecia Hebreu, Aramaico, Sânscrito, Pahlavi, Siríaco, Caldeu, Árabe, Persa, Chinês e várias outras línguas asiáticas. Em 1809 torna-se professor de História em Grenoble.
Concluiu que o copta, a língua falada pelos cristãos egípcios na altura, correspondia ao último estágio da antiga língua egípcia, e foi esta a sua grande vantagem sobre o inglês Thomas Young. Com o seu estudo, identificou vários dos caracteres demóticos na Pedra de Roseta, juntamente com os seus equivalentes coptas.Ao princípio, apesar dos resultados de Young, Champollion estava convencido de que os hieróglifos eram puramente simbólicos.

Qual o seu método de decifração ?
Ao estudar a Pedra de Roseta, Champollion identificou o único cartucho que aparecia 6 vezes como sendo o de Ptolomeu, dado que a secção grega referia que a inscrição era sobre um Ptolomeu.

Ele assumiu que os caracteres seriam a pronunciação de Ptolemaios, a palavra grega para Ptolomeu.

Em 1822, recebe a cópia de uma inscrição bilingue em hieróglifos e grego, de um obelisco egípcio que tinha sido trazido para Inglaterra pelo coleccionador J.W. Bankes, para ornamentar a sua propriedade.

No obelisco de Bankes, referem-se dois nomes reais na secção grega: Ptolomeu (Ptolemaios) e Cleópatra (Kleopatra). No texto hieroglífico dois cartuchos aparecem lado a lado.
Um deles é quase idêntico ao da Pedra de Roseta:



Este surge na Pedra da Roseta,

E este, no Obelisco de Bankes.

Dessa forma, o outro cartucho no obelisco de Bankes foi considerado como tendo o nome de Cleópatra:


Assim, decompondo os cartuchos de Ptolomeu e Cleópatra temos os seguintes hieróglifos:

1- Ptolomeu:

2- Cleópatra:

Champollion conclui que:
A1 = B5 , logo, deve representar a letra P.
A4 = B2 , logo deve representar L.
Então B1 deve ser K.

Substituindo as letras já conhecidas no nome de Cleópatra obtém-se...
Os sinais B3 e B4 entre L e P devem ser provavelmente os equivalentes às vogais E e O, respectivamente.
Em algumas formas do cartucho de Cleópatra, como esta acima, o sinal B7 é substituído por B10, que é o mesmo que A2. Provavelmente ambos significam T. B6 e B9 devem ser A.

Assim temos:
Os últimos dois sinais (B10 e B11) já eram conhecidos desde os estudos de Thomas Young, como sendo uma terminação honorífica em nomes de deusas, rainhas e princesas. Ou seja, não teriam valor fonético. Isto faz com que B8 = R

Champollion tinha descoberto o segredo: a antiga escrita hieroglífica egípcia era uma mistura de sinais representando sons (fonogramas) com sinais que representavam ideias ou palavras (ideogramas ou logogramas). O reconhecimento deste fenómeno foi a vantagem que Champollion teve sobre o seu colega Thomas Young na decifração do sistema de escrita.

A escrita hieroglífica continha três categorias de sinais:
Fonogramas - representam sons, e correspondiam a uma, duas, ou três consoantes. Constituem a base de toda a gramática egípcia.

Existem três classes de fonogramas:
Monoconsonantais - com uma única consoante.
Biconsonantais -com duas consoantes e Triconsonantais-com três consoantes.

Ideogramas - sinais sem valor fonético, que correspondem a uma ideia completa. Muitas vezes a palavra a que correspondem define literalmente um determinado objecto ou ser animado, sendo neste caso chamados de logogramas, escrevendo-se seguidos de um traço adjunto.

Determinativos - são uma extensão não-fonética dos ideogramas, sendo colocados no final de cada palavra hieroglífica. Esclarecem a categoria a que pertence a palavra que lhes é imediatamente precedente.

Quanto à orientação da escrita, esta efectuava-se na horizontal ou na vertical, e os hieróglifos podiam-se ler a partir da esquerda ou da direita, mas nunca de baixo para cima.

Um alfabeto é um conjunto de sinais seguindo uma ordem específica, que representam os sons unitários - fonemas - na escrita da língua usada por um povo em uma determinada época.Não se pode dizer que os egípcios usavam o alfabeto na sua escrita, pois combinavam vários tipos de hieróglifos entre si, e apesar de muitos deles serem fonéticos, eram frequentes os hieróglifos que correspondiam a mais do que uma consoante. No entanto, para efeitos práticos podemos isolar alguns hieróglifos que correspondem a fonemas isolados, formando assim uma espécie de alfabeto. Esta percepção virtual de um alfabeto facilita obviamente a criação de listas de palavras no estudo da antiga língua egípcia.

Seria impensável ensinar aqui a gramática egípcia, tal é o seu tamanho e complexidade, principalmente no sistema verbal. No entanto, é possível ilustrar através de simples exemplos as relações entre os vários elementos de uma oração básica. A imagem abaixo é um desses exemplos, e representa uma construção verbal simples, usando a regra VSO (Verbo- Sujeito- Objecto). Uma imagem vale por muitas palavras, e a seguinte imagem demonstra de forma simples alguns pontos essenciais da gramática do Egípcio Médio, a fase clássica da língua egípcia.


Este conjunto quer dizer: "A mulher local ouve o crocodilo infeliz"

Que eram os cartuchos ? E os serekhs ?

Durante o Período Dinástico Primitivo (c. 3150-2686 a.C.), os egípcios criaram a tradição de escrever a parte principal dos títulos reais do faraó dentro de uma forma oval alongada, vulgarmente conhecida pelo nome de cartucho, ou cartela (ver figs. A e B).

Este elemento da escrita hieroglífica Representava um cordão mágico que afastava do monarca os maus espíritos, conferindo-lhe assim protecção divina e mágica. A palavra egípcia equivalente era shenu (Snw). As inscrições com o título real completo de um faraó incluíam sempre dois cartuchos, o primeiro contendo o prenomen (nome de trono), que relacionava um ou mais aspectos do rei com o deus solar Rá, e o segundo cartucho continha o nomen (nome de nascimento), obviamente dado ao rei aquando do seu nascimento. A compreensão destes elementos nas inscrições de algumas estelas comemorativas e outros monumentos foi fundamental para a decifração dos hieróglifos durante o século XIX.

O cartucho seguia a orientação geral da escrita hieroglífica, e os seguintes exemplos demonstram-no com o prenomen do faraó Tutmosis III.


Fig. A - Cartucho horizontal

Fig. B - Cartucho vertical

Os primeiros faraós não escreviam o seu nome num cartucho, mas antes no serekh (srx), uma estrutura rectangular encimada pelo deus-falcão Horus (figura abaixo). Representava a fachada do palácio real, dentro da qual se inscrevia o Nome-de-Horus do faraó. Este título real era uma combinação do nome de trono do faraó com vários epítetos que o relacionavam com o deus-falcão Horus ou outros deuses.

Enfim, apesar da beleza dos hieróglifos, a escrita acabou sendo simplificada, pelo que surge a escrita demótica. Deve-se a Heródoto a designação de Demótica a essa escrita e que etimologicamente significa "popular". Essa modalidade aparece no Egito tardiamente, no decurso do séc. VII a.C. No tempo de Darío, o Persa.

Segundo se acredita, foram criadas as primeiras escolas e o sistema de escrita demótica permitiu a divulgação da escrita entre as camadas populares, certamente em menor escala em comparação com o que acontece presentemente.
A escrita demótica é uma forma simplificada ou degenerada do hierático. Freqüentemente as inscrições são difíceis de interpretar por causa do aglomerado ou junções de varias letras feitas com um único traço.
O ultimo documento demótico data de 476 d.C. demonstrando uma sobrevivência superior a mil anos. O idioma que lhe corresponde é o copta, com a junção de alguns vocábulos gregos.

Por: S. L. Lima

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