
Para nós, ocidentais, meditar significa reflectir a respeito de alguma coisa. No oriente, meditar é algo bem diferente. É entrar num estado de consciência onde se torna mais fácil compreender a si mesmo.
Assim, através da meditação, vamos prestar atenção e descobrir como funcionamos: Como agimos em determinadas situações, porque respondemos uma coisa quando gostaríamos de dizer outra, porque fugimos daquilo que mais queremos, porque vivemos mergulhados na ansiedade, na depressão e no cansaço quando queremos apenas a tranquilidade.
Grande parte dessa confusão é criada pela mente. Podemos dizer que ela é o instrumento de nossa consciência e contém a somatória dos nossos condicionamentos, padrões de pensamento, memória e lado racional.

A mente é como um lago agitado. Ao ver a lua reflectida nesse lago, poderíamos supor que a própria lua é algo disforme e agitado, mas estaríamos totalmente enganados. Da mesma forma, quando olhamos para o reflexo do nosso Eu-Superior no lago inquieto de nossa mente, não conseguimos perceber sua verdadeira natureza.
Meditar nada mais é do que aquietar os turbilhões dos pensamentos, serenar a mente para que possamos reconhecer com clareza nossa essência.
Durante esse processo de aquietar a mente nos damos conta de nossos padrões de pensamento e de acção e, assim, podemos transformá-los.
A meditação consiste de práticas diárias envolvendo essencialmente concentração da atenção. Embora apareça com uma aura mística, sua prática regular proporciona vários benefícios e aperfeiçoamentos práticos, como por exemplo:
Descanso físico, mental e emocional
Aumento da capacidade de concentração
Maior auto-liderança
Maior liberdade de escolha
Senso de identidade mais livre e mais rico em possibilidades.
A meditação também reduz a ansiedade, torna a respiração equilibrada e profunda e melhora a oxigenação e a frequência cardíaca. Seu reflexo no sono é um repouso mais tranquilo, sem interrupções. Além disso, atenua enxaquecas e resfriados, acelera a recuperação no pós-operatório e auxilia a digestão alimentar.
No campo psíquico, a prática mantém a pessoa num relativo estado de equilíbrio, com uma lucidez que a impede de entrar em conflitos emocionais internos, principalmente de origem afectiva. Há, por parte de quem a pratica, muito mais clareza mental, objectividade, paciência, compreensão e justiça.

Meditar não é reflectir, mas esvaziar a mente! Como assim? Deixando de lado os valores do Ocidente, que superestimam o “fazer sem cessar” e os bens materiais.
Para tal, siga os mestres orientais, cujos ensinamentos têm como fundamental o saber ficar em silêncio, manter a mente vazia e buscar a sabedoria interior. Nada de novo, os gregos já falavam nisso: "Conhece-te a ti mesmo", dizia Sócrates. "Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os deuses" está inscrito no Oráculo de Delfos.
Pensar sem parar, falar continuamente e ficar todo o tempo fazendo alguma coisa, produz ansiedade e nos afasta de nós mesmos. O silêncio desperta a alma e a mente vazia nos conecta com o Universo. Em busca do auto conhecimento, o “não-fazer” nos prepara para o que deve ser feito. Cultivar o silêncio não é das coisas mais fáceis no mundo em que vivemos. Exige mesmo todo um aprendizado, mas os resultados compensam: Em silêncio, nos conectamos com os desejos mais profundos e nos tornamos íntimos desse mensageiro da paz. Não é à toa que dizem que a palavra é de prata mas o silêncio é de ouro.
Nas comunidades budistas, no final da meditação nocturna, é praticado o "nobre silêncio" até a manhã seguinte. Fazem isso para que o silêncio e sua calma penetrem no corpo e na mente, ou seja, em todo o ser. Caminha-se para o quarto calmamente, tomando consciência de cada passo dado, da respiração, da quietude. Ninguém fala com as pessoas ao lado, pois toda a sangha (comunidade) tem o mesmo objectivo: a busca da paz. Nessas horas, alguns saem para curtir o frescor da noite, entrar em contacto com as árvores e as estrelas por uns 15 minutos. O tempo necessário para relaxar e chamar o sono.Ao acordar, os movimentos são realizados de forma silenciosa, para que cada um vá tomando consciência da própria respiração e assim despertando para mais um dia. Ao cruzar umas com as outras, em vez do tradicional "bom dia!", as pessoas simplesmente juntam as palmas das mãos em sinal de saudação.
É evidente que em sua casa você não vai agir como num mosteiro budista. Mas será muito bom se adoptar o hábito de acordar silenciosamente, para tomar consciência da respiração e do milagre da vida. É nessa hora que devemos mentalizar as acções que vamos empreender ao longo do dia. Focando a atenção nos actos que vamos praticar, tanto na vida pessoal quanto na profissional, fazemos tudo mais bem-feito, e consequentemente, com mais chances de êxito.

A prática da meditação, embora simples, requer bastante disciplina e regularidade. Abaixo estão algumas dicas de como iniciar sua prática de meditação:
Escolha um lugar sereno onde você possa sentar-se de maneira confortável e com a coluna erecta. Pode ser numa cadeira ou no chão com as pernas cruzadas. Sentar-se sobre uma pequena almofada ajuda a manter as costas erectas.
Use roupas que não apertem nem incomodem.
Acender um incenso ou colocar uma música bem suave pode ajudar a criar um clima de tranquilidade no início. Depois de algum tempo, pode ser que você prefira dispensá-los.
Evite meditar quando estiver com sono ou muito cansado. Você se sentirá frustrado por não conseguir se concentrar e desanimará de sua prática diária. Um bom horário para meditar é pela manhã, quando estamos mais tranquilos e descansados. Porém, isso também é individualizável. Se você sentir que consegue melhores resultados à noite, escolha esse horário.
Comece com dez minutos diários. Coloque um relógio para despertar após esse tempo, assim sua mente não poderá sabotá-lo fazendo-o acreditar que já se passaram muito mais que dez minutos.
Não se mova durante esse tempo. O corpo é como um pote e a mente é a água dentro dele. Mover o recipiente faz com que a água também se mova e, lembre-se, o que você quer é que sua mente permaneça quieta e imóvel.
A atenção deve estar voltada para o objecto da meditação (a respiração, um símbolo, etc.) sem que isso necessite de grandes esforços. Caso você disperse, reconduza sua atenção suavemente ao objecto escolhido.
Qualquer coisa que aconteça estará bem. Se houver um monte de pensamentos desfilando pela sua cabeça, se você tiver vontade de chorar ou de rir, se você achar que nunca vai conseguir se concentrar, tudo bem. Apenas continue sentado e, sempre que possível, volte a sua atenção para o objecto sobre o qual está meditando.
Um dos exercícios mais simples é observar a respiração. Sinta o ar entrando e saindo pelas narinas, acompanhe seu caminho por todo o corpo.
Repare nos movimentos da barriga, do peito. Veja se há movimentos ou sensações na pelve, pernas, cabeça, etc. Esteja com o ar o tempo todo.
Quando estiver em contacto com a natureza, sente-se diante de uma paisagem e observe-a. Ouça os sons, veja as cores, sinta os aromas mas não fique dando nome às coisas ou analisando-as: "esse cheiro deve ser daquela flor", "como é bonita a forma daquela montanha", "o som desses passarinhos me deixa tão relaxado...". Apenas ouça, veja e sinta sem criar frases na sua mente, sem ficar tagarelando internamente.
Sente-se diante de uma janela e deixe que a claridade invada seu corpo. Sinta a luz penetrando pelo alto de sua cabeça e fluindo por todo o corpo. Mantenha sua atenção nesse fluxo.
Repita o mantra OM durante todo o tempo da sua meditação.
Mantras são sons que trazem uma determinada qualidade de energia para quem os vocaliza. O mantra OM é um dos mais antigos do hinduísmo e sua qualidade é o equilíbrio e a serenidade. Ele nos traz energia e ajuda a clarear a mente.

Olhe atentamente para um símbolo ou um objecto que lhe chame a atenção naturalmente.
Pode ser um desenho, uma estatueta, um yantra (diagramas cósmicos do hinduísmo), etc.
No Yoga, usam o símbolo do OM para meditar. Olhe para esse símbolo e envolva-se com ele. Observe-o atentamente até que você possa mantê-lo com clareza na sua mente, mesmo de olhos fechados.
Sente-se em silêncio e preste atenção a cada som que surgir ao seu redor. Ouça tudo ao mesmo tempo. Não se detenha em nenhum deles. Nenhum é mais importante do que os outros, nenhum é melhor ou mais agradável. Não julgue, apenas ouça. Evite relacioná-los com os objectos ou seres que os produzem. Permita-se ouvir o som puro e perceber sua qualidade intrínseca.
Você pode meditar com as cores também. Pergunte ao seu corpo de qual cor ele necessita para estar em harmonia. Aceite qualquer cor que lhe venha à mente. Imagine um grande jorro de luz dessa cor fluindo sobre você ou mergulhe num oceano tingido com a cor escolhida. Não se preocupe em "ver" a cor, você pode apenas senti-la com seus sentidos interiores.
Observe seus pensamentos e tente perceber o espaço que existe entre um e outro. Mesmo numa mente completamente confusa, os pensamentos surgem e desaparecem deixando um breve espaço entre si.
Descubra esse espaço, nem que seja apenas um segundo. Observe-o e você vai perceber que ele começará a se ampliar. Ao penetrar nesse espaço em branco, você estará além da mente.
Existem centenas, talvez milhares, de técnicas de meditação. Cada um deve descobrir a que melhor combina consigo e a que produz melhores resultados. O que essas técnicas têm em comum é o facto de despertarem o observador passivo.
Observador passivo é aquela parte nossa que se mantém distante da turbulência da vida diária. Ele é como um sábio que olha o vilarejo do alto de uma colina. Ele vê as pessoas correndo de um lado para outro, as crianças brincando, um cachorro procurando comida, alguém morrendo, um bebé nascendo, a geada queimando a colheita e nada disso o afecta. Ele permanece sentado no alto de seu monte, impávido, pois sabe que a dor ou a alegria brotam da mesma fonte e nenhuma delas é permanente. O observador passivo sabe que a verdadeira felicidade pertence ao Eu-Superior e que quando estamos conscientes dele, nada mais nos afecta.
Mas ele também é um grande professor. Se você ficar com alguém 24 horas por dia observando como ele come, como se veste, como fala e age, como dorme, no final de uma semana você conhecerá muito sobre essa pessoa. Assim, se nos observarmos tempo suficiente, aprenderemos muito a nosso respeito. Aprenderemos como é que funcionamos, como agem nossos pensamentos e sentimentos, como eles influenciam nossas escolhas, etc.
Quando desenvolvemos o observador passivo, podemos olhar de longe a paisagem de nossa vida e encarar os desafios que ela nos propõe com isenção de ânimos, sem deixar que o emocional nuble nossa percepção.
É por isso que é tão fácil aconselhar um amigo com problemas. Como não estamos envolvidos emocionalmente, temos uma visão panorâmica da situação e podemos perceber as falhas e as possibilidades que ele não vê. Quando olhamos as coisas com uma certa distância, entendemos o contexto e os motivos por trás dos factos. E, com essa compreensão, podemos encontrar saídas criativas, podemos ver portas onde antes parecia existir apenas muros.

Sente-se confortavelmente e faça algumas respirações profundas.
Comece a observar os pensamentos que lhe chegam. Tome consciência deles e deixe que sumam em seguida. Não os evite nem os incentive.
Não dê continuidade a nenhum pensamento. A tendência da mente é fazer associações. Quando vem o pensamento "preciso pagar uma conta no banco" a mente dá continuidade: "será que tenho dinheiro suficiente? Se não tiver, posso pedir emprestado ao fulano. Caso ele não possa emprestar...". E assim vai. Portanto, corte o fio antes que toda a meada se desenrole.
Tente ver cada pensamento como um quadro estático, como uma cena de um grande video-clip que não merece muita atenção.
A mente está representando uma grande peça diante de você. Mas você não é o protagonista. Você é apenas o espectador. Portanto não se envolva.
Caso haja uma grande confusão de pensamentos fluindo, apenas "olhe" essa confusão. Não tente controlar seus pensamentos, deixe que eles venham da maneira que vierem.
Não espere nada de especial da sua meditação: fogos de artifício explodindo diante de si, deuses e iluminados desfilando, flores de lótus ou luzes maravilhosas. As imagens que surgem podem ser apenas produto da actividade mental, truques da mente para distraí-lo. Portanto, continue apenas observando como outro pensamento qualquer.
Não se envolva com a beleza ou beatitude delas. Se elas forem mais que um produto da mente, você saberá.
Com a prática contínua você será capaz de manter a mente em branco e ouvir a voz de sua intuição que também é um atributo do observador passivo.

Com a meditação, podemos reconhecer nossos erros, pensar e reagir melhor. Assim, a realidade se suaviza, desenvolvemos uma auto-imagem mais positiva e realista, ficamos menos ansiosos, aprendemos a ter menos expectativas. Dessa forma, passamos a ter menos desapontamentos, nossos relacionamentos melhoram, a vida se torna mais estável e prazerosa.
Só pouco a pouco nos livramos de nossos instintos nocivos e conseguimos adoptar em seu lugar hábitos positivos, capazes de trazer bons resultados para nós e para os outros.
Por: S. L. Lima


















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