Geralmente, as instituições religiosas têm a tendência cruel de deturpar a moral pregada por Cristo. Uma mente mais esclarecida sabe muito bem que o moralismo pregado por Yeshua Ben-Yossef não se restringia as proibições, mas sim a um processo de elevação moralmente espiritual do ser humano em prol do seu desenvolvimento através do mandamento máximo, e premissa de todos, que é o Amor.Ao longo dos séculos, com as instituições religiosas já firmemente estabelecidas, as sociedades também evoluíram, ao menos, em questões de proporção. Estas vieram a traçar normas e conceitos do que seria certo ou errado, ou do que seria sagrado e profano. A “decência” ou “indecência” nas sociedades mais modernas levaram ao cerceamento da liberdade de expressão e de conduta. As igrejas cristãs tentaram controlar a sociedade através de regras formais, manuais de conduta, mas por incrível que possa parecer, sem nenhum sentido de religiosidade e humanidade.
Daí temos este grande mistério, que não é mistério.Os cristãos (católicos e protestantes, principalmente os pentecostais e mais ainda, os neo pentecostais) parecem ter a tendência legalista e autoritária que remonta nas origens do Judaísmo, através das práticas religiosas dos judeus em relação às Leis de Moisés.

Como diz Max Weber:
“A Teoria segundo a qual a Lei Mosaica perdeu sua validez através do Novo Testamento, apenas no sentido de conter preceitos cerimoniais e puramente históricos aplicáveis somente ao povo judeu, de resto permanecendo válida e, devendo ser obedecida como uma expressão do direito natural permitiu, de um lado, eliminar os elementos inconciliáveis com a vida moderna, e de outro, o fortalecimento do espírito de sóbria e farisaica legalidade, que caracterizava o ascetismo secular dessa forma de protestantismo, através de seus inúmeros traços em comum com a moralidade do Velho Testamento.”

Quando a Sétima Arte surgiu, o Cinema, em 1895, tudo parecia ser extremamente liberal. Mas nos Estados Unidos, cuja Meca sempre foi Hollywood, existiu censura muitas vezes feita pelos próprios produtores, principalmente relacionados coma sexualidade. Era uma censura que tinha origem mesmo dentro dos grupos religiosos, encontrando apoio em vários grupos da sociedade puritana.
O mais famoso código de conduta do Cinema foi o CÓDIGO HAYS, que até o começo da década de 1960 regeu a “moral e os bons costumes” de Hollywood, impondo regras formalistas a serem seguidas pelos cineastas. Logo, o mundo do cinema tornava-se algo inexistente em nossa realidade, uma suposta perfeição seguida de moral e ética inexistente mesmo entre a própria sociedade que pregava. Não existia lugar nesse mundo do “faz de conta” para criminosos, marginais, prostitutas, sexualidade e necessidades fisiológicas.
DURANTE A DEPRESSÃO DE 1929, Hollywood parece que viveu a época mais liberal de sua história. Buscava entrar em sintonia com os novos tempos do pós-guerra e de grave crise econômica, e o público se tornava alheia em relação à moral. Com o agravamento da depressão, aumentaram o desemprego feminino e a prostituição. Para muitas mulheres desta época de crises, a venda do corpo tornou-se o único meio de sobrevivência. No Cinema, as heroínas tinham que sofrer por este pecado mortal, pouco importando se fizesse diferença se era por necessidade ou não. É também nesta época que surge a nudez nas telas.
Mas ao mesmo tempo em que surge esta onda de liberação, surgiu também uma forte oposição de onda moral, que deu origem ao Código Hays. Esse código foi elaborado pelo editor de jornais Martim Quigley, pelo Reverendo Daniel A. Lord, e por Will H. Hays, presidente da Motion Pictures na Distributors of America Inc. O código foi ratificado pela Associação dos Produtores de Cinema em 31 de março de 1930, mas só começou a entrar em vigor para aplicações em 1933, através de um movimento liderado pela Liga de Decência Católica Romana nos EUA, com o intuito de moralizar Hollywood.
Este código durou por 30 anos, mas já na década de 1950, alguns cineastas americanos, como Nicholas Ray e Elia Kazan começaram a ousar, infringindo o código. Logo, estes tabus e edifícios morais foram desabando aos poucos, acompanhando as transformações e costumes da época.
O Código Hays foi elaborado nos Estados Unidos pelos católicos, que apesar de ser minoria, exerciam grande influência. O Protestantismo nos EUA ela é mais cultural do que religiosa, como toda religião oficial que se torna massificada, mas nem por isto deixa de ter seus adeptos mais ferrenhos.

PARA MAX WEBER, a principal preocupação do código, seguindo a linha de raciocínio, eram mais política e social, do que propriamente religiosa (Nunca serão apresentadas de modo a suscitar pelo crime e contra a lei e a justiça, ou para inspirar aos outros um desejo de imitá-las). Havia reprovações relacionadas com dogmas religiosos cristãos (A vingança na época contemporânea não será justificada/ Nunca se deverá aprovar a eutanásia/ Nunca se mostrará o aborto e nunca de deverá subentender a sua existência numa história).
O Código era um objeto tipicamente moral burguesa formalista e legalista, com finalidade de manter o status quo. O estilo de vida que era idealizado era o american way life (Os métodos de contrabando não deverão ser mostrados/Não se mostrará o uso do Álcool na vida americana.../Os Sentimentos, os direitos e a história de qualquer país devem ser tratados com consideração e respeito).Em se tratando de assuntos raciais, o código era taxativo, pois esquecia os ensinamentos de igualdade de Cristo e proibia a miscigenação e o tráfico de brancas, permitindo o de negros (Não se falará de tráfico de brancas/a miscigenação é proibida).
Mas a maior preocupação do código foi sem dúvida a questão sexual. O Sexo, em todos os seus aspectos, foi o principal alvo, pois sempre houve um medo da arte corromper o ser humano moralmente, sobretudo pelo lado sexual, e isto é abordado no código: “a arte pode ser moralmente boa, elevando os homens aos mais altos níveis. Mas a arte pode, nos seus efeitos, ser moralmente má (...)”. Para a moral burguesa, o sexo era um fator de desagregação, de subversão, pois reavivava os instintos animais do homem, pois tirava a concentração do homem daquilo que se considerava mais importante, que era o trabalho (As cenas de paixão devem ser tratadas sem esquecer o que á a natureza humana e quais são suas reações habituais).
Antes mesmo de se pensar no código, ainda nos anos de 1920 havia forte manifestação de grupos religiosos contra a empresa cinematográfica de Hollywood. No outono de 1921, todos os presbiterianos, batistas e metodistas dos Estados Unidos, se mostravam ferozmente indignados: Se perguntavam: para que tinha Edison inventado às imagens animadas? “O cinema não é apenas a perversão dos episódios da tela, mas ainda o escândalo permanente de Los Angeles: a orgia, o deboche, a corrupção dos adolescentes, a fornicação, o sacrilégio".Isto foi bastante discutido e divulgado, pois os grupos religiosos eles não apenas observavam propriamente os filmes, mas sim até mesmo o comportamento de alguns astros e estrelas das telas.
"A Y.M.C.A adverte os seus aderentes contra os perigos da freqüência dos cinemas. Uma "One man reforms league" toma resoluções coléricas. O "Mother's Club" exige do governo medidas decisivas. Todas as manhãs os jornais anunciam novos escândalos: "Wiliamns é processado por bigamia". Owen Moore, o primeiro marido de Mary Pickford, acusa Douglas de atos imorais! Fatty é inculpado da morte de Virginia Rapp.Os atores se entregam à bebedeira. Foram descobertas 300 garrafas de champanhe!!!Danças impudicas!! Atentados contra os bons costumes!!! Por exemplo, o que fazia ontem X, o realizador, com Miss B....?”
Esta reação da sociedade americana aos conteúdos da incipiente indústria de imagens animadas, fez com que Adolph Zukor, o magnata da Paramount; William Fox, da Fox Filme Corporation; Goldwyn e Selznick, da Metro, a United Artists e outros, abandonassem sua guerra pelos mercados exibidores e se unissem para criar a MPPD - Motion Pictures Producers and Distributors, com um único objetivo: barrar a guerra santa contra o cinema. Foram buscar, nada menos que um conservador e presbiteriano bem sucedido relações públicas do então Presidente da dos EUA para assumir o papel de relações públicas da MPPD. Este era WILL HAYS. Não foi fácil, Will Hays nesta época ganhava a soma de U$10.000,00, por ano, no Ministério dos Correios. A MPPD lhe ofereceu U$100.000,00. Hays aceitou, criou o código de controle da produção cinematográfica, estabeleceu pactos com a imprensa para aliviar os "escândalos", enfrentou as comissões do congresso americano e, sobretudo ofereceu aos produtores a aura de credibilidade que estes não tinham, por serem na sua maioria imigrantes estrangeiros e judeus.
Hays formalizou a política de censura e mandou elaborar uma lista, a “Dont’s and Be Carefuls”, também conhecida como Código de Hays."Don’ts" não permitia, entre outras coisas, nudez “libertina”, tráfico de drogas, escravidão branca, cenas de nascimento, cirurgias, cenas de primeira noite, homem e mulher deitados na mesma cama (inclusive casados), genitália de crianças, beijos excessivos ou prolongados, perversão sexual e miscigenação.
"Be Carefuls" deliberava sobre, entre outros temas, o uso da bandeira americana, execuções legais, roubo de trens e sugestão de vulgaridade. Como não contava com o apoio do Estado, pois tal atitude violaria os princípios da democracia americana, Hays se empenhou em mobilizar os adeptos do catolicismo, representados por Martin Quigley. Assim, dez milhões de católicos assinaram um manifesto em favor da Legião da Decência, na esperança de livrar a sociedade norte-americana “da grande ameaça da lascívia no cinema”.
Um mutirão ecumênico - envolvendo vinte milhões de membros das igrejas protestantes e ainda organizações judaicas, a Liga Civil de Massachusetts e outras organizações a sociedade civil - ajudou a resgatar “a tradição da moral.
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O Código Hays consistia nos seguintes termos, que aqui serão apenas colocados os principais:
I-PRINCÍPIOS GERAIS
1-Não se produzirá qualquer filme susceptível de baixar a moralidade daqueles que o verão. Assim. A simpatia do público nunca tenderá para os vícios, o pecado e o mal.
2-Mostrar-se-á um modo de vida decente, dependendo apenas das exigências da intriga e do divertimento.
3-Não se porá o ridículo a lei, natural ou humana, e não se promoverá simpatia por aqueles que a violem.
II- APLICAÇÕES PARTICULARES
1-Violações da lei
Nunca serão apresentadas de modo a suscitar pelo crime e contra a lei e a justiça, ou para inspirar aos outros um desejo de imitá-las.
2-O Homicídio
a) A Técnica do homicídio será mostrada de maneira a não suscitar a sua imitação;
b) Não se deverão mostrar em pormenor os homicídios brutais;
c) A Vingança na época contemporânea nunca será justificada;
d) Nunca se deverá aprovar a eutanásia.
3-Delitos
a) Não se mostrará pormenorizadamente o método utilizado num roubo, num assalto, num Hold- up, a destruição por dinamite de um comboio, de uma mina, de um prédio;
b) Observar-se-á a mesma prudência em relação à piromania;
c) O uso de armas de fogo será reduzido ao essencial;
d) Os métodos de contrabando não deverão ser mostrados;
e) Sublinha-se que não se deve pensar que é fácil ou rápido parar de se drogar, nem mostrar em pormenor a maneira de arranjar a droga ou de tomar, nem exagerar os lucros do seu tráfico, nem mostrar as crianças a drogarem-se ou a fazerem o tráfico da droga conscientemente
f) Não se mostrará o uso do álcool na vida americana, a não ser que o argumento ou o tratamento duma personagem o exijam.
g) Interdição a todos os atos cruéis e inumanos, incluindo a tortura.
4-O Sexo
O Caráter sagrado da instituição do casamento e do lar será mantido.
Não se deverá inferir que as relações sexuais de baixa condição são de uso corrente e reconhecido.
a)O adultério e qualquer comportamento sexual ilícito, por vezes necessário para a construção de uma intriga, não devem ser apresentadas sob uma forma atraente;
b)Cenas de Paixão: Não devem ser introduzidas se não forem absolutamente essenciais à intriga. Não se deve mostrar beijos, abraços demasiados apaixonados, poses e gestos sugestivos. O beijo de Língua na boca é proibido. Em geral, o assunto da paixão deve ser abordado de modo a não despertar emoções inferiores.
c)A Sedução e Paixão: Nunca se deve ir além da sugestão, e somente quando essenciais à ação. Nunca se deve mostrá-las de maneira explícita.
Não são assunto de comédia:
. As Perversões sexuais, subentendidas ou não, são proibidas.
. Não se falará do tráfico de brancas;
. A Miscigenação é proibida
. Nunca se mostrará os órgãos sexuais das crianças
. Nunca se mostrará um parto, de fato ou em silhueta;
. Evitar-se-á o assunto do aborto, apenas poderá ser sugerido. Será condenado quando a ele fizer alusão. Nunca se deverá falar do aborto com ligeireza, nem transformá-lo em assunto de comédia. Nunca se mostrará o aborto e nunca se deverá subentender a sua existência numa história. Nunca se pronunciará a palavra “aborto”.
5-A Vulgaridade
O tratamento de assuntos baixos, desagradáveis, ordinários (mas não necessariamente maus), deverá ser sempre guiado pelo bom gosto e respeito pela sensibilidade dos espectadores.
6- A Obscenidade
As palavras, gestos, reverências, canções, brincadeiras ou sugestões (mesmo que compreendidas por uma parte restrita do público) são objeto de proibição.
7-As Blasfêmias
As blasfêmias intencionais e todas outras palavras irreverentes ou ordinárias são proibidas sob qualquer forma. O Código não aprovará o uso das seguintes palavras e frases:
Alley Cat (gata, vadia, prostituta)
Bat (vampiro, prostituta)
Broad (rapariga, no sentido pejorativo de prostituta)
Bronx Cheer (beijo sonoro em exagero)
Chippie (mulher fácil)
Cripes (mel, num sentido ordinário)
Fanny (nádega)
Fairy (homossexual)
Finger (dedo, indicador, denunciante)
Fire (gritos de fogo, isto é, gritos de gozo)
Gawd (deformação de Deus)
To gaase (doença venérea)
Hold Your Hat (não se excite)
Hot (quente)
Louse (patife)
Lousy (asqueroso, porcalhão)
Nance (travesti)
Nuts (testículos)
Pansy (pederasta)
Razzberry (arroto)
Slut (prostituta ordinária)
S.O.B (Son of a Bitch, filho da “mãe”)
Toillets gags (urinol público)
Tom cat (aditivo sexual)
Christ, Jesus, God (usados de forma irreverente).
8- A Religião
Nunca se deverá ridicularizar uma fé religiosa.
Não se deverá produzir um filme incitando à ira ou o fanatismo religioso entre povos de diferentes raças, religiões ou origens.
Os ministros do culto, na sua função de ministros de culto, não serão mostrados com aspecto cômico ou escabroso.
Tratar-se á as cerimônias de qualquer religião com atenção e respeito.
III- EXTRATOS DAS DECISÕES PARTICULARES
1-A arte
Se bem que seja uma arte nova, o cinema tem o mesmo objetivo das outras artes. A arte pode ser moralmente boa, elevando os homens aos mais altos níveis. Mas a arte pode, nos seus efeitos, ser moralmente má. É o caso, bem evidente, da arte imoral, dos livros indecentes, das histórias sugestivas. O seu efeito sobre a vida dos homens e das mulheres é evidente.
Deste modo, o Cinema, que é a mais popular das artes modernas, tem obrigações morais, devido à confiança que as pessoas lhe atribuem.
2-O Sexo
As cenas de paixão devem ser tratadas sem esquecer o que é a natureza humana, e quais são as suas reações habituais. Muitas cenas não podem ser apresentadas sem despertarem emoções perigosas nos jovens, nos atrasados mentais e criminosos.
Mesmo nos limites do amor puro há fatos cuja apresentação sempre tem sido considerada pelos legistas.
3-A Nudez
O efeito da nudez ou da semi-nudez sobre os homens e as mulheres normalmente constituídos, e ainda mais sobre os adolescentes e os atrasados mentais, foi reconhecido com honestidade pelos legistas e moralistas.
Onde o fato que a possível beleza dum corpo nu ou seminu não retira nada à imoralidade da sua exibição num filme. Porque, além da sua beleza, o efeito de um corpo nu ou seminu sobre um indivíduo normal deve ser tomado em consideração.
O recurso à nudez ou à semi-nudez com o simples fito de “apimentar” um filme deve ser classificado entre as ações imorais. É imoral no seu efeito sobre o espectador médio.
A Nudez não deve em caso nenhum ser duma importância vital para a intriga. A Semi-nudez não deve ser traduzida por exibições inconvenientes ou obscenas.
Roupas transparentes ou translúcidas e silhuetas são muitas vezes mais sugestivas do que uma nudez de fato.
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Enquanto isso, a indústria do tabaco estreava o "merchandising" no cinema, pagando aos produtores por cada minuto de película em que os protagonistas aparecessem fumando.
Em julho de 1934, foi criada a PCA (Production Code Administration) para supervisionar o estrito cumprimento do Código de Hays. Os filmes que estivessem de acordo com os padrões morais recebiam um "Selo de Aprovação". Os recusados perderiam automaticamente os canais de distribuição da poderosa MPPDA, de Hays. A desobediência significaria uma multa de 25 mil dólares, fortuna para a época.

O Código de Hays, administrado pelo católico Joseph Breen até 1954, ainda sobreviveu até 1956, embora as mudanças viessem gradualmente até os meados dos anos de 1960, com os novos movimentos que estavam surgindo, como a liberação feminina e os hippies. Em 1968, o código Hays foi removido, dando lugar a uma tabela de classificação de filmes, pela Motion Picture Association of América (MPAA).
Entretanto, este código deixou marcas indeléveis e frutos amargos, de um passado onde uma determinada sociedade ainda não vivia da clareza e da evolução de distinguir o que fosse ética, e muito menos, moral, pois algumas vezes, a idéia do “pecado” pode estar somente na perigosa imaginação abjeta de alguns seres humanos, que, todavia, preferem serem autoridades e mensageiras máximas de todo o moralismo, do que simplesmente reconhecerem suas próprias falhas e defeitos.
Por Paulo Nery.



















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