quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O Sangue de San Gennaro

No próximo dia 19 deste mês, a Igreja Católica celebrará em seu litúrgico calendário a memória do mártir San Gennaro (São Januário). Reza que duas vezes por ano, um frasco de cristal e prata contendo o sangue coagulado deste santo é tirado de um cofre na igreja que leva o seu nome, em Nápoles (Itália), e é mostrado aos fiéis. Diante dos olhos dos peregrinos, o milagre acontece: o plasma sai do estado sólido e se liquefaz.

O Milagre de San Gennaro vem sendo celebrado em Nápoles desde o século 14. O arcebispo exibe um frasco supostamente com o sangue do santo. Se o sangue estiver liquefeito, a população pode estar certa de que o futuro será benigno, um alívio para quem vive sob o monte Vesúvio, o vulcão que destruiu Pompéia. Caso o sangue permaneça sólido, o futuro não é nada promissor. Multidões assistem ao ritual em um estado de absoluto desespero. A Congregação do Vaticano evita interferir nesse tipo de caso.

Mas... será mesmo um milagre?

Os rituais ocorrem sempre no primeiro sábado de maio e no dia 19 de setembro. Quando o fenômeno não acontece, segundo se diz, é prenúncio de alguma desgraça futura.
O suposto "sangue", guardado em Nápoles, num sofisticado relicário portátil, se liquefaz uma ou duas vezes por ano desde 1389. Mas para entendermos melhor como todo este processo se iniciou a cerca deste frasco, e cujo “sangue” leva o nome deste santo católico, vamos a uma breve história do mesmo e de que como surgiu o frasco:

São Januário ou San Gennaro nasceu em Nápoles, no ano 270 d.C. Nada se sabe ao certo sobre os primeiros anos de sua vida. Em 302 foi ordenado sacerdote, e por sua piedade e virtude foi escolhido, pouco depois, para Bispo de Benevento. Sua caridade, infatigável zelo e solicitude pastoral desterraram de sua diocese a indigência, tendo ele socorrido a todos os necessitados e aflitos.

O imperador Diocleciano, o último a perseguir cristãos antes que a religião católica fosse declarada a oficial do Sacro Império Romano, ordenou que ele fosse jogado aos leões. O bispo Januário foi preso com mais alguns membros do clero, sendo todos julgados e sentenciados à morte num espetáculo público no Circo. Sua execução era para ser, mesmo, um verdadeiro evento macabro, pois seriam jogados aos leões para que fossem devorados aos olhos do povo chamado para assistir. Porém, a exemplo do que aconteceu com o profeta Daniel, as feras tornaram-se mansas e não lhes fizeram mal.

O imperador determinou, então, que fossem todos degolados ali mesmo. Era o dia 19 de setembro de 305. Alguns cristãos, piedosamente, recolheram em duas ampolas o sangue do bispo Januário e o guardaram como a preciosa relíquia que viria a ser um dos mais misteriosos e incríveis milagres da Igreja Católica. São Januário é venerado desde o século V, mas sua confirmação canônica veio somente por meio do papa Sixto V em 1586.

A ampola com sangue era colocada diante do túmulo dos mártires. No século 9, a ampola e os restos mortais foram levados para Benevento. Em 1497, mudou-se para a Catedral de Nápoles, onde estão até hoje. Desde 1608, os restos mortais de São Januário estão guardados na Capela do Tesouro, para cumprir uma promessa feita pelos napolitanos em 1527. A região de Nápoles foi assolada por uma peste, mas, segundo a lenda, San Gennaro preservou a cidade. Os napolitanos acreditam que o santo também protegeu Nápoles da erupção do vulcão Vesúvio em 1631, e não deixou a cólera matar a população durante a epidemia que assolou a região em 1884.

Um milagre que ocorre três vezes por ano também faz com que San Gennaro seja venerado. O sangue guardado na ampola, que virou pó graças à ação do tempo, transforma-se em líquido no sábado que precede o primeiro domingo de maio, no dia 19 de setembro (quando se comemora o aniversário do seu martírio, data da festa do santo) e em 16 de dezembro, aniversário da erupção do Vesúvio.

Existe mais de 5 mil processos que confirmam o fenômeno, inclusive a declaração de Montesquieu, que assistiu a duas destas liquefações em 1728. Em 1902, o conteúdo das ampolas foi submetido a exame diante de testemunhas e em 1991, o cientista G. Sperindeo declarou que não havia dúvida de que se tratava de sangue humano, que, uma vez coalhado, não perde o estado sólido. A liquefação do sangue, que continua ocorrendo na Catedral de Nápoles, tem sido analisada e verificada com maior rigor desde o século 20. São seis séculos de fé, superstição e ceticismo, que acompanham o mistério dos milagres de sangue do padroeiro de Nápoles e do bairro da Mooca em São Paulo.

Durante a sua festa, no dia 19 de setembro, sua imagem é exposta à imensa população de fiéis na catedral de Nápoles. Por várias vezes, na ocasião a relíquia do seu sangue se liquefaz, adquirindo de novo a aparência de recém-derramado e a coloração vermelha. A primeira vez, devidamente registrada e desde então amplamente documentada, ocorreu na festa de 1389. A última vez foi em 1988.

O mais incrível é que a ciência já tentou, mas ainda não conseguiu chegar a alguma conclusão de como o sangue, depositado num vidro em estado sólido, de repente se torna líquido, mudando a cor, consistência, e até mesmo duplicando seu peso. Assim, seguem, através dos séculos, a liquefação do sangue de São Januário como um mistério que só mesmo a fé consegue entender e explicar.

O sangue do santo martir está recolhido em duas ampolas de vidro, hermeticamente fechadas, protegido por duas lâminas de cristal transparente. A ampola maior possui 60 cm cúbicos de volume; a menor tem capacidade de 25 cm cúbicos. Em geral, o sangue endurecido ocupa até a metade da ampola maior; na menor, encontra-se disperso em fragmentos.

A liquefação do sangue produz-se espontaneamente, sob as mais variadas circunstâncias, independentemente da temperatura ou do movimento, o sangue passa do estado pastoso ao fluido e, até, fluidíssimo. A liquefação ocorre da periferia para o centro e vice-versa. Algumas vezes, o sangue liquefaz-se instantânea e inteiramente, ou, por vezes, permanece um denso coágulo em meio ao resto liquefeito. Alterar-se o colorido: desde o vermelho mais escuro até o rubro mais vivo. Não poucas vezes surgem bolhas e sangue fresco e espumante sobe rapidamente até o topo da ampola maior.

Trata-se verdadeiramente de sangue humano, comprovado por análises espectroscópicas. Entretanto, em outros testes, já não comprovam a presença de sangue humano.

Há algumas peculiaridades, que constituem outros milagres dentro do milagre liquefação, há uma variação do volume: algumas vezes diminui e outras vezes aumentam até o dobro. Varia também quanto à massa e quanto ao peso.

Em janeiro de 1991, o prof. G. Sperindeo utilizando-se, com o máximo cuidado, de aparelhos de alta precisão, encontrou uma variação de cerca de 25 gramas. O peso aumentava enquanto o volume diminuía. Esse acréscimo de peso contraria frontalmente o princípio da conservação da massa (uma das leis fundamentais da Física) e é absolutamente inexplicável, pois as ampolas encontram-se hermeticamente fechadas, sem possibilidade de receber acréscimo de substâncias do exterior.

O químico Luigi Garlaschelli, da Universidade de Pavia, investigou o milagre de São Januário. Estudos da substância no frasco não conseguiram demonstrar conclusivamente que ele contém sangue, embora acusasse traços de hemoglobina. Garlaschelli pesquisou que materiais seriam disponíveis em Nápoles no século 14 e preparou uma mistura que pode duplicar o milagre. Seu preparado, consistindo de pedra calcária, ferro e certos pigmentos, são sólidos quando não sacudido e líquido quando sacudido, mais ou menos como ketchup.

Há coisas que a ciência não explica, mas se tratando de relíquias sacras, vai da fé individual de cada um.

Por Paulo Néry

0 comentários: